Esses dias tem sido difíceis pra mim, recebi uma carta do proprietário do meu apartamento dizendo que ele precisará usá-lo, porque separou da mulher. Não sei direito porque nem li tudo. Quase morri com aquela noticia. Não tinha como eu arranjar um lugar pra ficar com o prazo que aquele Filho da Puta me deu. Resolvi ligar pra Clarice, só ela poderia me ajudar. Quando liguei ela estava chorando muito.
- Clarice, to com um problema que só você pode me ajudar.
-Ai Lavinho, problema? Eu é que to com um problemão e só você pode me ajudar.
-Querida Jam, nesse momento eu não posso ajudar ninguém porque estou desesperado.
-Querido Olavo, me too!
-Tá bom, conta o seu então.
-Não, desculpa, você que ligou, conta aê.
-Então faz assim, vamos contar junto no três.
-Mas lavinho, ninguém vai entender nada.-SHIUUUUU... no três. Um, dois, três...
E num berro só... “Fui despejado(a)” Falamos juntos...
-Como assim, Clarice?!
-Como assim digo eu. Ia pedir pra ficar na sua casa por uns dias.
-Eu também ia pedir isso. E AGORAAA - Gritei freneticamente.
-To indo praí, preciso sair daqui Urgente. Mesmo que daí a gente vá pra debaixo da ponte.
Clarice chegou azul e me contou toda a história. Disse que os vizinhos deram queixa dela, por causa do incidente com as drogas, saiu até no SPTV. Ainda bem, que ela se escondeu e ninguém a viu. Mas por causa dos protestos contra ela, ficou muito ruim morar lá. Ficamos horas tentando achar uma solução e resolvemos ligar pro Lacerda, uma vez ele tinha dito pra gente que podíamos ligar sempre que tivéssemos um problema gigante. Pois bem, tínhamos. Lacerda sempre foi meio carrancudo, mas quando se dizia em ajudar, ele era o melhor amigo do mundo. Ele nem questionou o porquê, só disse pra gente se aprontar que ele passaria em casa pra nos pegar e tomar uma cerveja.
“BEHHHHHHHHHHHHHHH...” – Buzinou igual um executivo estressado no trânsito.
-O La chegou.
-Que é isso Olavo, todo íntimo.
-É bem... é que a gente andou conversando bastante e ele me deixou chamar assim. Por que, algum problema?! ¬¬
-Não, mas ele sempre foi tão...
-... HT?
-É...
-Para com isso, né? Bom parar. Sabe que ele é tudo, menos cabecinha pequena. Me estranha muito você que já deu uns pegas nele, é toda sapatão, fuma, bebe, se droga... me poupe, né? Se ele fosse preconceituoso, você seria a primeira que ele cortaria da lista dele – Falei visivelmente indignado.
-Ai, ta bom, não quis ofender, bee.-Acho bom! E vamos que ele ta esperando.
E fomos pra porta. Chegando lá, nós dois ficamos com a boca aberta, sem esboçar nenhuma reação. A não ser olhar fixamente praquele carro lindíssimo que estava parado na porta, que nem me lembro o nome de tanto espanto que estava. Tinha um loiro alto e bem vestido na porta dele. Clarice até disse que um dia a gente chegava lá. Eis que ouvimos um chamado.
-Ei, ei, psiuuuuuuuu...
-Clarice, é com a gente?-Acho que sim!
-AI MEU DEUS! É o Lacerda?!
-CHO-CA-DA
-E aí, pessoal, borá?! – indaga Lacerda felizão.
Era surreal, nem sabia que Lacerda tinha tanto dinheiro. Mas que bom que ele tinha. Fomos pra um PUB velho na augusta, que tinha uma senhora velha de nome Tina, porém muito estilosa, com um sotaque esquisito. O bom dela é que ela era muito parecida comigo. Tinha sempre uma piada na ponta da língua. O PUB se chamava CaféTINA. Um tanto quanto sugestivo aquele nome, mas não tinha nenhuma profissional do sexo lá. Os acentos eram típicos daqueles que tem nos restaurantes americanos. Muito confortáveis, mas um pouquinho ragado. Vermelhos e verdes. Mais tarde ela disse que a cor foi inspirada no filme “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” e o Lacerda vibrou.
-Gente, é o seguinte. Tenho uma proposta pra vocês. Eu pensei muito na minha vida ultimamente e to achando muito chata. Eis que um tio meu, me deixou uma herança e por isso que estou assim todo diferente, vocês devem ter percebido. Foi mais ou menos um milhão.
Nesse momento, nossa cara foi no chão. E ele continuou...
-Por isso, eu tive uma idéia muito maravilhosa. Espero que gostem. Sempre tive vontade de montar uma república de amigos retardados, bêbados, liberais e libertários. Onde eu pudesse decorar com livros, jornais, vinis, quadros, tudo. Por isso, to querendo montar uma república. Já chamei o Bernardo e ele topou. Aí, reuni vocês aqui pra ver se querem ir também. E ae, topam?
Eu e Clarice ficamos sérios e sussurramos:
-Vamos dar um de difícil.
-É, quem ele pensa que é – disse Clarice.Nós dois levantamos, rodeamos a mesa. Paramos na frente dele. E, como quem não quer nada, dissemos:
-Nós pensamos bem e achamos que você é digno da nossa companhia. Por isso, achamos uma boa idéia ir com você. Afinal, você é nosso amigo e só queremos te ver feliz.
-Ai, que bom galera, achei que seriam os mais difíceis de conseguir. É por isso que escolhi vocês. Vocês são foda.
-Sim – concordamos
-Então, mas o que vocês tinham pra me contar.
-Nós... falei meio sem jeito... nada não, era besteira.
Clarice e eu caímos na gargalhada internamente.
-Pois é, só falta arranjar o lugar e achar um jeito de Sophia vir também. Afinal, vocês já se resolveram né Jam?
-Sim, digamos que estamos bem, mas ela não será problema. Pode deixar que eu mesma falo com ela.
Nesse momento, olhamos pra cima e a Dona Tina estava parada com as cervejas e o copo na mão. O Cabelo dela era curto e vermelho cereja bem forte. Ela parecia estar ali há algum tempo. Ela foi sucinta, olhou e já disparou.
-Olha queridos, sei que são dos meus. Por isso, ouvi a conversinha de vocês e tenho uma proposta.
Nós com a cara de taxo, nem acreditando que ela estava falando com a gente.
-Estou alugando a parte de cima do meu PUB. É bem grande, está meio acabadinho. Mas nada que uma reforminha não dê jeito. É o ideal pra vocês. Tem cinco quartos razoáveis e vários cômodos que eu nem sei pra que servem. Eu moro aqui na parte de baixo. Tem entrada independente e tudo mais.
Os nossos olhos brilharam. Lacerda fitou os olhos nela e só fez um pergunta:
-Poderemos ter uma conta aqui no PUB?
-Claro que sim!
-FEITO – Gritamos os três.
Logo depois subimos pra conhecer, parecia que estávamos entrando num fabuloso mundo. Os sonhos e desejos de uma nova vida passavam pela cabeça dos, até que sentamos juntos num sofá velho que tinha lá no final do corredor e Lacerda disse:
- Enfim, borá ao trabalho.

Nenhum comentário:
Postar um comentário